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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009
Continuação da entrevista

 

José Lopes é teu avô por parte paterna, não é verdade?

Exactamente. Nasceu em Cabo Verde em 1872. Os seus avós e pais já viviam lá havia muito tempo. Já meu trisavô, António Lopes da Silva, Tenente-Coronel de Milícias, no séc. XVIII, capitaneava lugres de Sua Majestade, percorrendo os mares de Cabo Verde e dando caça aos piratas que infestavam as ilhas. José Lopes casou-se com uma senhora judia, Isabel Benoliel. No cemitério da Boa Vista, ainda hoje poderão ver o túmulo do meu bisavô, Isaac Benoliel, pai da minha avó.

 

Quando começaste a escrever?

Desde muito cedo. Dir-se-ia que já aos dez anos escrevia poemazinhos que se perderam. O meu pai adorava poesia, recitava Casimiro de Abreu, Antero de Quental, Castro Alves e tocava violão. O meu avô, José Lopes, era o grande poeta de Cabo Verde e também musicólogo. Tocava órgão e flauta. Eu fui educada neste ambiente. No liceu, nas festas, recitava poemas de meu avô e de outros poetas.

Escusado será, então, dizer que teu avô te influenciou muito, no sentido de seres atraída para a literatura, não só como leitora, mas activamente como escritora.

Cem por cento. Ele foi meu mentor, como o foram também meus pais, que liam muito.

 

Conviveste muito com o teu avô? Fala-me um pouco dele.

O meu avô era uma figura proeminente, espécie de patriarca, mentor para todos os assuntos. Toda a gente o respeitava e admirava pela sua vasta cultura e simpatia. Foi professor do liceu de latim, grego, português, francês, geografia e história.

Agraciado com várias comendas, entre elas a de Cavaleiro da Ordem de Cristo, de Avis, de Santiago, do Infante de sagres. Recebeu do próprio De Gaulle a comenda de Chevalier de La Légion d’Honneur por um poema que escreveu em homenagem à resistência francesa, durante a 2ª Guerra Mundial. Este poema era lido na BBC, exortando os “maquisards” a combaterem. Também pelo poema “Contamine de Latour”, em homenagem a um herói da Guerra de 14, foi eleito Membro da Académie Française, por proposta do Marechal Foch. Foi também Cônsul da França e Vice-Cônsul do Brasil em Cabo Verde.

 

Com que idade vieste para Lisboa?

Vim com 16 anos, o que constituiu um grande abalo na minha vida. Como já disse noutra entrevista, foi um buraco negro que só consegui preencher lendo sem parar os poetas portugueses, os romances de Camilo, de Eça, de Zola, de Victor Hugo. A Manon Lescaut do Abbé Prévost, Balzac, Jacques Prévert, Lamartine, etc.

 

Quais as obras que mais te marcaram numa idade em que ainda não se têm os gostos bem definidos?

Todas as que acabo de referir, como igualmente O Drama de Jean Barois de Roger Martin du Gard que me marcou na vivência religiosa. O Livro de San Michele de Axel Munthe tocou-me no aspecto psicológico. Mas forma também muito importantes para os meus 16 e 17 anos a obra de Camilo, O Retrato de Ricardina, O Amor de Perdição e, sobretudo, A Freira do Subterrâneo (tradução). Igualmente a obra de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro e Os Maias. Mais tarde, foram os escritores russos que, com o seu realismo, me interessaram. Crime e castigo de Dostoievsky, Guerra e paz de Tostoi, A Mãe de Maxime Gorki, Almas Mortas de Nikolai Gogol, o grande poeta que foi Maiakovsky, os escritores americanos como Hemingway, Steinbeck e Walt Whitman.

Mas houve um romance que me tocou particularmente, Siddartha, do escritor alemão Hermann Hesse, com a sua visão do Oriente, recriando a figura de Buda. Li também muito Freud.

 

Mas voltando ao teu cordão umbilical com Cabo Verde, continuaste a lidar com os teus conterrâneos, em Portugal? Foste encontrando aqui alguns dos teus ex-colegas do liceu?

Sim, até hoje cultivo essas amizades. Convivi, na época, com os meus conterrâneos na Casa dos Estudantes do Império, em festas particulares, como ainda em Angola, para onde fui, tempos depois, onde havia também uma Casa de Cabo Verde.

Estava muitas vezes com Amílcar Cabral, que tinha sido meu chefe de turma no Liceu, em São Vicente. Voltei a encontrá-lo na casa dos Estudantes do Império. Encontrava-me regularmente com Ovídio Martins e Gabriel Mariano, que estudavam Direito, e com Francisco Lopes da Silva, meu primo irmão. Em Angola, convivi com Manuel Duarte e Humberto Fonseca e com muitas famílias cabo-verdianas, entre elas, a de Mesquitela Lima, que era então Director do Museu de Luanda.

PUBLICADO POR DM às 20:38
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